1.1 Definição,
Objectivos e organização da disciplina. Epidemiologia , definição,
objectivos e usos
(C) (1). Prespectiva histórica dos conceitos
causais e da evolução da medicina veterinária.
Prespectiva histórica. Os conceitos de causa e as estratégias de controlo e os metodos de tratamento evoluiram ao longo dos tempos. Esta evolução promoveu o desenvolvimento da Medicina Veterinária. Ela pode ser divididida em 4 fases. A passagem de uma fase para a outra fez-se depois de “crises”.
1. Primeiro período. Este período estende-se até 1º sec AD. Inicia-se com a explicação das causas nos demónios e poderes sobrenaturais. O “tratamento” era baseado no sacrifício, exorcismo, evasão e tranferência em cerimónias. Segue-se a explicação com base no poder divino, i.e ofensa a Deus, o “tratamento” consistia no sacrifício. Mais tarde aparecem como explicação as forças ocultas além do universo físico, leis naturais mas sem princípos científicos, lua estrelas e planetas, o “tratamento” era a base de uso de preparados especiais. Por ultimo desenvolve-se a “teoria dos humores” i.e desarranjo dos humores associado a 4 propriedades (calor humidade, secura e frio) e 4 elementos (ar, terra, agua e fogo). Doença era causada por forças externas como climáticas e geológicas que produziam o miasma. Malaria= mau ar (dos pantanos). Esta interpretação dos fenómenos era já susceptível de investigação científica. Hipócrates escreve o "Discurso acerca do ar, aguas e lugares". O “tratamento” era feito por alteração da dieta e uso de laxativos. Aparece o primeiro hospital veterinário no Egipto.
2. O segundo período estende-se até 1762. Desenvolve-se a Medicina Equina e Cirurgia, Apsyrtus. Os conceitos de causa mantêm-se (miasma e metafísica). Verifica-se que o conhecimento e os métodos empregues não satizfaziam completamente. Na prática existe uma crise, os animais continuam a morrer, a urbanização (necessidade de mais alimentos) agrava a situação.
3. O treceiro períododesenvolve-se até 1884. É dominado pelas grandes pestes em bovinos. Os métodos utilizados incidiam sobre a melhoria das condições de higiene, quarentena, abate e tratamento individual. Surge a Primeira Escola Veterinária em Lyons (1762). Segue-se Alfort (1766) Hannover 1778, Londres em 1791, Edimburgh 1823 e Toulouse 1825 ( A França perdeu metade do seu gado entre 1710 e 1714 com a Peste Bovina). Varíola ovina e pleuropneumonia entram na Inglaterra. Em 1865 por causa da Peste Bovina aparece o primeiro Serviço Veterinário estatal na Grã-Bretanha e as primeiras leis.
4. Quarto período estende-se até 1960. Desenvolve-se a teoria do contagio. A descoberta dos micróbios , as grandes descobertas de Pasteur (antrax e raiva) e Kock (tuberculose e cólera) e seus postulados revolucionan a teoria causal do período anterior. Os virus são confirmados em 1930 (com a ajuda domicroscópio electrónico). Kilborne identifica um artrópode como vector da febre do texas. Começa a exercer-se o controlo directo sobre a causa. Desenvolvem-se os testes em massa e a vacinação. Faz-se a interferência nos ciclos de vida dos agentes e o controlo de vectores. Apareceram os primeiros antibióticos. Combinam-se as técnicas de quarentena restrição das importações abate e higiene. Como resultado alcançam-se os primeiros sucessos na eradicação de doenças. A Pleuropneumonia contagiosa dos bovinos foi erradicada nos Estados Unidos em 1892 e na Grã-Bretanha a Peste Bovina em 1887, a pleuropneumonia em 1898 eo mormo e a sarna em 1928.
No limiar deste período a crise resulta dos problemas concretos dos sistemas de produção: como doenças infecciosas complexas e infecções mistas, doenças subclinicas como helmintiasis e deficiências minerais, adenomatose e parvovirose porcinas, doenças não infecciosas como de origem genética (displasia da anca no cão), metabólicas (cetose) e neoplásticas (tumor mamário dos caes) e doenças de causas desconhecidas com participação de agentes como Pasteurella haemolitica, E. Coli e nas mastites.
5. Quinto período. Os postulados de Kock estão ultrapassados e a teoria multifactorial domina cada vez mais o universo da Medicina Veterinária. E aplicável às doenças infecciosas e não infecciosas. Acrescentaram-se duas grandes estratégias: i)registo estruturado de informação sobre doença.ii) A análise da doença na população animal.
A epidemiologia é uma
ciência antiga mas o seu desenvolvimento está ligado à
teoria causal estabelecida nos anos 1800. Desde essa altura até
1960 a epidemiologia esteve aliada à microbiologia na batalha contra
as doenças. Depois de 1960 a epidemiologia expandiu o seu
alcance e muitos factores para além do agente específico
para determinar o seu papel como causas potenciais de doença. Simultaneamente
os métodos quantitativos começaram a ser mais usados na investigação
epidemiológica. Na Medicina Veterinária isto foi mais pronunciado
na ultima década e acompanhou as mudanças que se operaram,
com a diminuição da frequência e magnitude das doenças
epidémicas infecciosas. As doenças crónicas, não
infecciosas e relacionadas com a produção começaram
a ter mais atenção.
EPIDEMIOLOGIA (Definição e conceitos básicos)
Definição
Etimológicamente Epidemiologia vem do grego :
EPI= ACERCA DE
DEMOS= PESSOAS, POPULAÇÃO
LOGOS= ESTUDO
O termo Epizootiologia é utilizado como sinónimo.
Uma definição simples mas abrangente de Epidemiologia é a seguinte: É a disciplina que estuda a distribuição e os determinantes de saúde e doença nas populações, e o desenvolvimento de estratégias para melhorar a saúde e a produtividade nessas populações.
Uma definição
mais completa de epidemiologia seria : Estudo da frequência e distribuição
das doenças nas condições de campo na população
(animal) e dos determinantes (factores) que afectam a sua ocorrência
(espacial e temporal). Envolve a colheita, processamento, análise
e interpretação de dados acerca da doença e determinantes
da doença e fazer inferências biológias e económicas
com base nesses dados. O
que é Epidemiologia?
Do ponto de vista prático a epidemiologia tem um ou mais dos seguintes objectivos:
- Determinar a origem da doença
cuja causa é conhecida.
- Determinar a causa da doença
inicialmente desconhecida.
- Estudar os factores (determinantes)
que afectam a frequência e distribuição das doenças.
" A arte da epidemiologia baseia-se na habilidade em coordenar o uso das diferentes disciplinas e técnicas utilizadas na investigação de doenças, e de obter a partir dos resultados a compreenção de como é que uma doença se mantém e/ou se transmite numa população"
A epidemiologia é o
instrumento de diagnóstico na população da mesma forma
que a patologia clinica e a microbiologia é para o indivíduo.
O objectivo final da Epidemiologia
é explicar porque é que a doença ocorre com o objectivo
de reduzir a severidade ou frequência da doença e portanto
os efeitos negativos na produção e na saúde pública.
A unidade de trabalho em epidemiologia é o grupo (representativo da população) e não o indivíduo.
População:
Conjunto de indivíduos que têm uma (ou mais) característica
(s) em comum.
O termo também é
usado para um grande número de indivíduos duma certa espécie
para os quais se está a fazer inferências baseada na informação
de uma amostra.
População em risco: Sector da população que é considerada susceptível (biológicamente em risco) de adquirir uma doença.
A estrutura da população tem níveis de complexidade e qualidade diferente . Cada nível tem caracteríticas superiores ás do nível anterior.
O nível de organização seleccionado para um estudo específico ( a unidade de amostragem nos estudos observacionais e a unidade experimental nas experiências de campo) é a unidade de amostra para o estudo em causa. Frequentemente não é o indivíduo mas o grupo. A unidade de amostra é importante porque pode limitar as inferências causais acerca dos indivíduos atravéz dos resultados obtidos de uma amostra. A unidade de amostra é também a base para determinar os graus de liberdade usados nos testes estatísticos.
A maioria do trabalho epidemiológico é trabalho de campo (empresa, cidade clínica etc.). As observações epidemiológicas relacionam-se e derivam-se de situações do campo embora a análise dos dados se possam fazer no "laboratório".
Natureza dos estudo epidemiológicos.
Seguem o método científico !!!!
As observações clínicas os estudos descritivos e o conhecimento da doença levantam as hipóteses que são trabalhadas em estudos observacionais, experiencias controladas e mesmo estudos teóricos.
Nos estudos observacionais o epidemiologista observa mas não influencia ou controla directamente a variável independente ou dependente.
Na experimentação controlada quer ela seja feita no laboratório ou no campo as variáveis estão sob controlo. Há as experimentações verdadeiras quando a alocação dos indivíduos ao tratamento é feito ao acaso ou "quasi" verdadeiras quando esta alocação não e feita ao acaso.
Nos estudos teóricos as condições de campo são simuladas as variáveis independentes manipuladas e o resultado avaliado. São económicos e têm prepectivas no futuro.
Sequência do raciocínio causal.
Os estudos observacionais processam-se em 3 etapes.
1. A variável independente (determinante) está estatisticamente associada à variável dependente?
2. Se está associada estatisticamente está dentro de critérios (biológicos) aceitáveis para indicar que as variáveis estão causalmente associadas?
3. E possível elaborar a natureza e consequência da associação causal em modelos experimentais?
O termo associação é utilizado na linguagem do dia a dia. Em epidemiologia significa que os dois eventos têm que ocorrer simultaneamente mais ou menos frequentemente do que seria de esperar por acaso. Para o efeito se usam testes estatísticos. Os resultados dos testes estatísticos indicam a probabilidade de o fenómeno em estudo ocorrer por mero acaso. Quanto mais baixa for esta probabilidade mais alta é a possibilidade de o factor em estudo ter alguma influência nos resultados. O limite convencionado é 5% (P<0.05). Se a probabilidade de um fenómeno ocorrer ao acaso é P<0.05 então a probabilidade de ele não ocorrer ao acaso é P<0.95.
Conceitos básicos.
Conceito 1. A
doença está relacionada com o ambiente (fisico, biológico,
sociológico). Para estudar o efeito do ambiente comparam-se ambientes
diferentes.
No ambiente há factores
(determinantes) climáticos por ex. temperatura e humidade que influenciam
a sobrevivência de parasitas e vectores e portanto variam a frequência
de ocorrência de doenças parasitárias e vectoriais.
Ex. coelhos/coccidiose/temp/humidade
Há também factores
não climáticos como o maneio e as instalações.
Ex. tipo instalação/incidência
de doenças respiratórias em suínos ou falta de fibra/diarreia/coccidiose
em coelhos.
Conceito 2. " Os fenómenos de massa são predictíveis" Podem por essa razão ser razoávelmente bem quantificados. Para o efeito são necessários conceitos básicos de estatística e demografia.
Conceito 3. O estudo começa com a observação da história natural da doença (i.e experimentação natural). Muitas vezes os estudos experimentais não são praticáveis por várias razões inclusivé económicas. Os estudos observacionais são um alternativa para a investigação nos países em desenvolvimento. Ex. Dr. Snow e cólera em Londres 30 anos antes da identificação do agente. CBPP na América do Norte.
Conceito 4. Experimentação de campo controlada deve ser feita sempre que possível. Na espécie de interesse e no seu ambiente natural. Nesta experimentação o tipo, tempo e a dose de infecção é deixado a natureza e os possíveis factores do ambiente que modificam os efeitos são incorporados para que os resultados sejam directamente aplicáveis.
A Epidemiologia gera informação
para decisão racional na prevenção da doença
ou para a optimização da saúde.
Este objectivo também
é procurado por outras disciplinas. A contribuição
especial da epidemiologia é (i) fornecer informação
sobre a frequência e distribuição da doença,
(ii) identificar os factores (determinantes) e quantificar a interrelação
entre saúde e doença. No primeiro caso estamos a falar de
Epidemiologia descritiva no segundo de Epidemiologia analítica.
No primeiro caso descreve-se a a doença (quanto existe e como está
distribuido) No segundo caso testam-se hipóteses. Procura-se saber
porque é que a doença ocorre.
A Epidemiologia analiza
os problemas de doença de forma global, coordena o uso de outras
disciplinas e técnicas científicas no processo de investigação
da doença, junta os resultados e produz uma visão tão
completa quanto possível de como uma doença se mantém
na população e na natureza.
Relação entre a Epidemiologia, Medicina Interna e Patologia
A relação existente
entre estas disciplinas pode ser expressa no seguinte quadro.
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| Unidade de Interesse | Indivíduo doente | Indivíduo morto | População (saudável, doente, e morta) |
| Localização usual | Hospital clínica | Laboratório (Removido das circunstancias e ambiente onde a doença ocorreu) | Campo (onde ocorre a doença) |
| Objectivo primário | Estudo e recuperação
do indivíduo |
Estudo e
recuperação de indiivíduos no futuro |
Controlo da doença ou prevenção da sua futura ocorrência |
| Método de diagnóstico | Classificação
da doença
com base em sinais e sintomas (Procedimento organoléptico) |
Classificação
com base nas
respostas do hospedeiro. |
Determinação da frequência e formas de ocorrência da doença |
| Questões | O que é isto?Como se trata isto? | O que é isto? Qual
é o mecanismo? (patogenese) o que causou isto? (agente
patogénico específico) |
O que é isto? natureza
e frequência da ocorrência na população)
Que individuos têm a doença? (frequência por características dos hospedeiros). Aonde é que está a ocorrer? quando é que ocorre? O que causou isto? (Determinantes) Porque é que ocorreu? (combinação de circunstancias) Como pode ser controlado ou prevenido) |