Reforma do MINAG , a DINAP , a Autoridade Veterinária e os “Serviços de Veterinária”*

 

 

O ano de 2006, começou com algumas surpresas desagradáveis, no que diz respeito aos Serviços de Veterinária (sentido lato) resultado de decisões, sem consulta, sem substância e denotando um considerável desprezo pelos princípios fundamentais de natureza Ética, Organizacional e Técnica estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) de que Moçambique é membro. A OIE congrega  167 países e tem como objectivos  (i) Assegurar a transparência da situação das doenças animais e zoonoses a nível mundial (ii) colher, analisar e  disseminar informação científica na área veterinária (iii) dar apoio técnico e encorajar a solidariedade internacional no controlo das doenças animais (iv) salvaguardar o comércio mundial através da publicação dos padrões para o comércio internacional de animais e produtos de origem animal (v) melhorar o enquadramento legal e os recursos dos Serviços Veterinários Nacionais (vi) dar uma melhor garantia da qualidade sanitária dos alimentos de origem animal e promover o bem estar animal baseado em princípios científicos.

No processo que levou à extinção da Direcção Nacional de Pecuária, foram os directores e outros responsáveis do MINAG tanto quanto possível aconselhados sobre os princípios fundamentais que devem nortear os serviços de veterinária sem qualquer efeito, nem que simplesmente fosse o de ouvir os quadros desta área.

Em tempo (Outubro de 2005) o Director Geral da OIE, Dr. Bernard Vallat enviou uma carta onde chamava a atenção para a necessidade de a reorganização dos serviços de veterinária ser feita “....de acordo com os padrões internacionais (estrutura, organização, recursos e capacidades) como um investimento público prioritário....... ). Também enviou 2 documentos importantes que estabelecem os princípios fundamentais : “Performance, Vision and Strategy for Veterinary Services” e o capítulo sobre a “Avaliação dos Serviços Veterinários, contido no código Zoosanitário Internacional (2005)”. Apesar destas iniciativas e de outras do próprio Departamento de Sanidade Animal, que teve a franqueza de enviar ainda na fase preparatória, esta documentação  para o Gabinete de S. Exa, o  Ministro da Agricultura, nenhum destes assuntos mereceu a devida reflexão e correcção.

A já fraca estrutura dos Serviços Veterinários do País, foi-lhe tirada a cabeça, tornando estes serviços ainda mais fragmentados, sem comando e coordenação vertical. Como consequência também foi atropelado o decreto 8/2004 de 1 de Abril que define a Autoridade Veterinária e confere a esta os poderes para proteger a saúde pública e a economia do País. O descrédito que os serviços veterinários do país já vêm acumulando ao longo dos anos no país e na região recebeu um “buster” e poderá causar a partir de agora às autoridades moçambicanas um embaraço ainda maior em relação ao comércio internacional de alimentos de origem animal. Não é por acaso que a Autoridade Veterinária Sul-africana não remove o controlo para Febre Aftosa nas fronteiras, apesar de ser do seu conhecimento que a doença se encontra controlada desde Agosto de 2004.

Estas mudanças dão-se num momento deveras preocupante para todo o mundo, quando o vírus da gripe aviaria, se dissemina inclusive em Africa. É difícil pensar como vamos controlar esta epidemia no figurino institucional actual e a quem vamos responsabilizar nestas circunstâncias.

Estamos em crer que as mudanças foram induzidas e efectuadas sem conhecimento ou com conhecimento incompleto da matéria e esperamos sinceramente que se corrijam os erros antes que seja tarde demais.

 

 



* Texto da responsabilidade de Carlos Lopes Pereira, até à data, consultor  (IFAD) na ex-Unidade de Epidemiologia Veterinária do ex-Departamento de Sanidade Animal da ex-DINAP.